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O
convite para escrever este artigo nos induziu à seguinte questão:
seria possível, com seriedade, sem procura de sofismas, adequar,
se não integralmente, em grande parte, o pensamento de Ruy Barbosa
à problemática social, política e econômica brasileira? A resposta
que encontramos para esta pergunta, ao longo do trabalho de investigação
bibliográfica, foi certamente positiva, desde que levemos em consideração
as limitações que lhe foram impostas pela época em que viveu.
Mais conhecido pelas suas idéias acerca da educação ou do direito,
Ruy Barbosa também dedicou parte de sua vida ao estudo do pensamento
de alguns teóricos da ciência econômica, a partir do qual produziu
as suas próprias idéias econômico-financeiras. Não tendo sido um
especialista nesta área, a inteligência privilegiada, a vocação
e a prática política acabaram, entretanto, por familiarizarem-no
com os assuntos dessa natureza.
Os antecedentes doutrinários de Ruy Barbosa
O primeiro vestígio do interesse de Ruy Barbosa pelos problemas
financeiros e econômicos foi registrado pelo seu famoso parecer
sobre o ensino superior, em 1882. Naquela época, o ensino da Ciência
das Finanças se fazia em conjunto com a Economia Política. Traçando
um arrojado plano para a solução daquilo que considerava um problema,
propôs a separação das duas cátedras, criando, assim, três disciplinas
autônomas: Finanças Públicas, Economia Política e Economia Monetária
e Financeira. Esta última ficaria reservada exclusivamente ao estudo
do crédito, moeda e bancos.
Nesse mesmo parecer, proclamou a urgência do Brasil implementar
uma política de industrialização ativa dos seus produtos agrícolas
ou naturais como forma de solucionar os seus mais variados e complexos
problemas e clamou o país a unir-se em torno do seu plano de educação
intensiva, como sendo o caminho mais seguro ao desenvolvimento econômico
da nação. Adepto da concepção de Adam Smith e David Ricardo acerca
do valor-trabalho, Ruy Barbosa entendia que a plataforma de riqueza
de qualquer país assentava-se no homem. "Não é a terra nem o numerário
o que constitui a riqueza das nações, mas a inteligência do homem;
eis a lei fundamental da verdadeira ciência das finanças (...) A
promoção do desenvolvimento da ciência é fundamental ao desenvolvimento
econômico das nações"1. Identificava, portanto, os investimentos
em educação como necessidade premente ao desenvolvimento da economia
brasileira. "Todo recurso, por maior que fosse, aplicado pelo Tesouro
Nacional ao ensino, seria um investimento, o mais rentável de todos
os investimentos"2, afirmou ele.
Adepto dos ideais liberais, Ruy Barbosa reprovava as políticas econômicas
de cunho protecionista, qualificadas por ele como "preconceito mercantilista
do século XVIII a estender-se pelo século XIX". A industrialização
e conseqüente geração de riqueza numa economia deveria ser impulsionada
não por políticas protecionistas, mas, primeiramente, através da
educação do povo, para o qual o poder público não deveria medir
esforços ou gastos. Na sua concepção, nem o protecionismo nem o
liberalismo eram, entretanto, capazes de criar valores ou melhorar
a qualidade dos produtos gerados em uma economia. Um ou outro não
eram mais que agentes de distribuição, para proporcionar aos valores
existentes condições de mercado mais ou menos vantajosas. A solução
para a crise industrial residia, para ele, na instrução e não nas
políticas protecionistas que combinam impostos e tarifas aduaneiras.
"À industrialização é imprescindível organizar a educação, preparar
a inteligência, o sentimento e a mão do industrial para emular,
na superioridade do trabalho, com a produção similar dos outros
Estados. (...) A instrução não tem preço. Os processos científicos
de Pasteur descobrem a origem da enfermidade que arruína a sericultura,
instituem os meios de preveni-la; e essa conquista imaterial sobre
a ignorância é apontada por Huxley como um dos recursos mais consideráveis
de reparação para as brechas financeiras abertas à França pela guerra
de 1870. Nem vai nisso hipérbole; porque a moléstia do bicho da
seda, em dezessete anos, infligiu ao País uma perda de quinhentos
mil contos"3.
Ruy Barbosa opunha-se ao endividamento público e ao aumento da tributação
como forma do Estado acudir as crises e remover os déficits. Ao
posicionar-se sobre esse assunto, insistiu em afirmar por várias
vezes que a única forma do Estado resolver os seus problemas financeiros
seria através da promoção da industrialização do país, que deixaria
de produzir apenas matéria bruta, e assentar essa industrialização
na imediata intensificação dos serviços educacionais. Estava convicto
de que só a industrialização do país, aumentando o nível de produção
e remunerando mais generosamente o esforço do seu povo, criaria
a riqueza tributável capaz de elevá-lo à altura de uma grande potência.
Com relação às finanças públicas, Ruy Barbosa demonstrou mais uma
vez ser um homem de idéias sempre à frente do seu tempo. Defendeu
veementemente uma maior distribuição da arrecadação tributária entre
os municípios, para os quais eram reservadas, no seu entendimento,
uma parte desproporcional das receitas provenientes das arrecadações
dos cofres públicos nacionais e provinciais. Além disso, aderiu
a uma noção que, naquela época, se reputava temerária, mas que veio
a ser no século seguinte a grande bandeira da teoria keynesiana
do final dos anos 20, e, hoje, serve de base à aplicação dos gastos
públicos como instrumento de política fiscal no controle da conjuntura
econômica e na preservação dos níveis de emprego da economia. Para
ele, mais prejudicial ao país do que as 'aventuras financeiras'
às quais ele pudesse se lançar seria vê-lo condenado à uma deletéria
imobilidade econômica. No que diz respeito às medidas de política
monetária, Ruy Barbosa condenava as emissões primárias de papel-moeda
de curso forçado, mas possuía uma nítida compreensão de que em certas
circunstâncias elas representariam uma contingência inevitável,
de que nenhum Estado deveria ou até mesmo poderia se eximir.
"Por mais nocivo que seja o papel-moeda no seu emprego ordinário,
nas suas conseqüências habituais, não há governo que possa repudiá-lo
sob uma fórmula explícita ou implicitamente absoluta. Motivos de
necessidade financeira o vedariam, quando o não vedassem necessidades
de natureza constitucional, inerentes à vida orgânica do Estado,
à sua autoridade indesfalcável"4. A emissão monetária era capaz
de prover o Estado de recursos imediatos, o que a arrecadação certamente
não lhe poderia angariar, senão com excessiva delonga. A força inexorável
das circunstâncias era, no seu entendimento, justificativa do papel-moeda
de curso forçado, à falta de outros meios de financiamento das despesas
do Estado nas horas extremas. Uma grande questão se impôs, entretanto,
a respeito da emissão monetária: unidade ou pluralidade dos bancos
emissores? Sobre ela, Ruy só veio a assumir uma posição econômica
e não apenas legal quando passou a titular da pasta da Economia,
em 1889.
Foram estas as principais idéias econômicas e financeiras que guiaram
as ações do ministro Ruy Barbosa durante todo o período em que assumiu
o Ministério da Fazenda, na primeira década do governo republicano.
Ruy Barbosa: um ministro discutido
Ao longo desses quase cento e dez anos de República, dezenas foram
os titulares que ocuparam o Ministério da Fazenda. Houve quem exercesse
o cargo durante onze anos, batendo o 'record' de duração no cargo,
assim como não faltaram também nomes ilustres à sua frente. Contudo,
sem sombra de dúvida, a despeito do curto período em que permaneceu
no cargo, Ruy Barbosa foi e é até hoje um dos mais discutidos Ministros
da Fazenda que o Brasil já teve.
Empossado pelo chefe do governo provisório, General Manoel Deodoro
da Fonseca, em 15 de novembro de 1889, como Ministro e Secretário
de Estado dos Negócios da Fazenda, Ruy Barbosa se manteve como tal
durante apenas quatorze meses, ao longo dos quais deu importantes
contribuições à economia brasileira. Vejamos, portanto, como este
controvertido ministro, exatamente um dos que menos tempo ficou
no cargo e que dispôs de base política menos estável, dentro e fora
do país, agiu em meio às circunstâncias adversas.
As suas atividades ministeriais concentraram-se, em princípio, na
criação dos atos institucionais da recém-nata República, sobre cujo
berço se desvelou, protegendo-a contra as manifestações de hostilidade
e desconfiança dos seus opositores. Coube, entretanto, a Ruy Barbosa
não só a tarefa mais difícil nos primeiros momentos da vida republicana,
mas também o apostolado mais ingrato durante os mais de trinta anos
em que ainda viveu, sob o regime de que ele fora um importante organizador.
Nelson Werneck Sodré resumiu as contribuições do ministro Ruy Barbosa
da seguinte forma: "A tarefa reformadora de Ruy Barbosa abrange
grande variedade de iniciativas, afetando a estatística, o montepio
do funcionalismo, o Tribunal de Contas, o crédito hipotecário, a
reforma tributária, o crédito à lavoura e indústria, a legislação
de sociedades anônimas, o problema das emissões. Todas essas iniciativas,
porém, obedecem a uma razão coerente, ao sentido renovador, à necessidade
de possibilitar o desenvolvimento das forças produtivas, até aí
entravadas por um aparelho de Estado obsoleto e por um sistema econômico
e financeiro retrógrado"5.
A primeira década do regime republicano foi marcada por mudanças
estruturais na economia brasileira que estavam relacionadas, sobretudo,
à súbita disseminação do trabalho assalariado, com o fim da escravatura
e com a maciça entrada de imigrantes, e ao reordenamento da inserção
do país na economia internacional. Nesta época, a orientação da
política macroeconômica do país orbitou em torno do memorável debate
entre metalistas e papelistas. Enquanto os primeiros defendiam a
volta do padrão ouro, o segundo grupo entendia que a crescente pressão
da difusão do trabalho assalariado sobre a demanda de crédito no
país deveria ser sanada pela emissão de moeda.
Ruy Barbosa criou e implementou uma reforma financeira que levantou
contra ele uma oposição desabalada. Adepto da solução papelista,
foi responsável pela criação da lei bancária de 17 de janeiro de
1890, que viria a ser a sua principal medida de política econômica,
através da qual introduziu diversas novidades na constituição monetária
do país. Inspirada no sistema bancário norte-americano, esta lei
estabelecia emissões bancárias a serem feitas sobre um lastro constituído
por títulos da dívida pública. Para isso, foram formadas três regiões
bancárias, cada qual tendo o seu próprio banco emissor. Foi criado,
então, o Banco dos Estados Unidos do Brasil (BEUB), banco emissor
da região central que teria um preponderante papel no novo sistema.
A política monetária de Ruy Barbosa, mais conhecida como política
do Encilhamento, era, portanto, descentralizadora, diferentemente
da política monetária adotada pelo atual governo brasileiro, que,
ao contrário, busca centralizar o controle da emissão monetária.
Coerente com os seus princípios desenvolvimentistas, Ruy Barbosa
patrocinou uma rápida expansão da oferta de moeda na economia brasileira,
através da regionalização da emissão bancária, com o objetivo de
atender "às legítimas necessidades dos negócios", já que havia no
país uma demanda reprimida de numerário.
Em seguida, preocupado com o crescimento da especulação, o governo
iniciou um trabalho de "limpeza" das carteiras bancárias de emissão
e começou a patrocinar a consolidação dos grandes bancos, promovendo
a fusão do BEUB e do Banco Nacional do Brasil (BNB) que resultou
na criação do Banco da República dos Estados Unidos do Brasil (BREUB)
em 7 de dezembro de 1890. A intenção do governo ao apoiar este novo
estabelecimento parecia ser a de constituir uma espécie de banco
central nos padrões britânicos, ou seja, um grande banco de depósitos
e descontos com poderes para regular o volume de moeda em circulação
na economia, dotado, ao mesmo tempo, de função emissora e de poder
no mercado de câmbio.
Uma outra preocupação da administração de Ruy dizia respeito à situação
do Balanço de Pagamentos e à dependência da arrecadação da União
dos impostos alfandegários. Sabia que a situação favorável das contas
externas devia-se, em grande parte, à paridade cambial que não era
duradoura. Estudou profundas reformas no sistema tributário com
o objetivo de torná-lo mais justo e produtivo, que expôs no Relatório
do Ministério da Fazenda, de 1891. O projeto de reforma tributária,
contido nesse relatório, se tivesse sido levado a efeito, colocaria
o Brasil, desde então, no rol dos países com as mais perfeitas instituições
tributárias da época. Com um discurso que guarda até hoje exímia
contemporaneidade, Ruy Barbosa defendia a cobrança discriminada,
personalizada e progressiva do imposto de renda, condenava a imunidade
de que gozam até hoje os fazendeiros por considerá-la injusta e
advogava a criação do imposto territorial, que àquele tempo era
praticamente desconhecido.
Em 20 de janeiro de 1891, após completar quatorze meses de colaboração
com o Governo Provisório, Ruy Barbosa deixa o Ministério da Fazenda
convicto de que durante o rápido período em que ocupara o cargo
de tamanha envergadura e responsabilidade havia feito aquilo que
considerara ser o melhor para a nação e o povo brasileiro.
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