Em 1950, no decorrer do terceiro ano do seu mandato de governador,
Octavio Mangabeira sofreu um enfarto, para o qual certamente contribuiu
a atividade incessante, somada às naturais preocupações decorrentes
do cargo. Quando foram permitidas as visitas, fui vê-lo, nos seus
aposentos, no Palácio da Aclamação. Estava numa tenda de oxigênio
e parecia tranqüilo. Apenas acenava com uma das mãos para o visitante,
num leve gesto, como que agradecendo a visita.
Soube-se, algum tempo depois, que uma das primeiras visitas,
feita no mesmo dia do distúrbio cardíaco, foi a de João Mangabeira.
Este passara alguns dias na Bahia e já se preparava para embarcar
para o Rio quando, no aeroporto, recebeu o aviso da crise de saúde
do irmão. Dirigiu-se, incontinenti, ao Aclamação. Dr. Octavio,
que estava lúcido, apesar da vaga sensação de dor deixada pelo
enfarto, mostrou-se surpreso com o seu aparecimento. João Mangabeira
explicou: "Adiei a viagem". Ao que Octavio retrucou, com um leve
sorriso: "Eu também".
Essa enfermidade muito influiu no estado de espírito e na atividade
do governador durante a parte final do seu mandato. Apesar de
sua conhecida despreocupação pelas facilidades de vida, e pela
quase obsessiva fidelidade aos deveres, podia-se perceber que
já não era o mesmo homem, a pessoa capaz de suportar longas jornadas
de trabalho, além das contrariedades da política. Ainda assim,
logo refeito, tornou às tarefas da administração; e se as recomendações
médicas o obrigaram a cancelar as exaustivas audiências públicas,
todavia não abriu mão das visitas a hospitais e asilos, e a obras
e serviços.
Aproximando-se as eleições de 1950, não foram poucos os que lhe
sugeriram candidatar-se ao Senado. Recusou, tendo preferido exercer
o mandato até o último dia. Terminou-o em 31 de janeiro de 1951.
E ficou durante os quatro anos seguintes na planície, ou, para
dizer com exatidão, numa casa alugada na Graça, modesta casa térrea,
contígua à do Clube do Bridge, em que, como antigamente no Palácio
da Aclamação, conversava à noite com os amigos. Daí se transferiu,
com D. Ester, para um apartamento no Hotel da Bahia, onde passou
a receber, na parte da tarde, aqueles que o procuravam.
Candidatou-se à Câmara Federal em 1954. Seus principais discursos
estão impressos no décimo volume da coleção "Perfis Parlamentares",
selecionados criteriosamente por Josaphat Marinho, o fiel discípulo.
São discursos que só é como que forçado a ler, ou a reler, tal
a sedução que exerce, mesmo na fria letra de fôrma, a palavra
do orador excepcional, que falava impelido pela paixão da pátria
ou da liberdade. Discursos como o de 25 de março de 1955, em que
comentou o quadro político brasileiro naqueles dias; como o de
10 de novembro ainda de 55, sobre o aniversário do Estado Novo;
como o de 13 de maio de 1957, contra a concessão de licença para
processar o deputado Carlos Lacerda; como a admirável oração de
5 de agosto de 1957, dedicada à memória de Washington Luiz.
Eleito senador, em 1958, Octavio Mangabeira compareceu algumas
vezes à tribuna da Câmara Alta. Isso aconteceu em momentos especiais.
Em 28 de abril de 1959, para saudar os novos confrades. Em 25
de maio do mesmo ano, para advertir sobre o sentido de protestos
populares. Em outras oportunidades, sobre a proposta da criação
de senadores vitalícios e sobre a revolta de Oficiais da Aeronáutica.
No discurso em que fez o elogio de Washington Luiz, dissera:
"Vou chegando, ou, aliás, já cheguei a uma fase da existência
em que nos invade o espírito a perplexidade da dúvida. Como que
de tudo duvidamos".
Talvez que este mesmo estado de espírito tenha movido Octavio
Mangabeira a copiar as palavras de Ruy Barbosa no pedaço de papel
que foi encontrado no bolso do pijama com que faleceu, na Clínica
S. Vicente, no Rio de Janeiro, em 29 de novembro de 1960. Foi
sua última mensagem. "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto
ver crescer as injustiças, de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se
da honra, a ter vergonha de ser honesto".
Teria perdido a fé?
O próprio Cristo não parece tê-la perdido quando, no auge da
angústia, esvaindo-se na cruz, exclamou: "Pai, Pai, por que tu
me abandonaste?".
Todavia, a fé de Cristo sobreviveu a Ele, e eternizou-se no Evangelho.
A fé de Octavio Mangabeira, como a de Ruy, perenizou-se no exemplo
da vida e da palavra.
Jorge Calmon
É jornalista e foi deputado estadual da corrente
política liderada por Octavio Mangabeira.