Em discurso de 23 de novembro, noticia a imprensa que o presidente
Fernando Henrique Cardoso disse lamentar a baixa consciência histórica
do País. Verdadeiro ou não tal fato, certo é que, em anterior
cerimônia no Palácio do Planalto, S. Exa., outra vez discursando,
deu a entender que participava também daquela pequena consciência
histórica. Deu-se isto nas recentes comemorações, honradas com
a presença de S. Exa. e da primeira-dama, do chamado Dia da Cultura.
Peço licença para lembrar que a simpática festa oficial não foi
corretamente definida, pois se omitiram, nos convites, três palavras
da Lei nº 5.579, de 5 de maio de 1970 - base de sua legitimidade.
Assim dispõe o seu Art. 1º "Art. 1º - Fica instituído o Dia da
Cultura e da Ciência, que será comemorado a 5 de novembro de cada
ano, como homenagem à data natalícia de figuras exponenciais das
Letras e das Ciências". E no Parágrafo único deixa perfeitamente
explicitado que: "As comemorações a que se refere o presente artigo
terão como escopo o Conselho Rui Barbosa, nascido a 5 de novembro
de 1849". Qual o fim que a Lei 5.579 quer atingir? Ela mesma o
diz, no texto de seu parágrafo único acima transcrito e do artigo
segundo. Ela quer estimular o conhecimento da personalidade histórica
de Rui Barbosa, através da divulgação de sua vida e sua obra,
principalmente "nos estabelecimentos de ensino do País", por intermédio
do Ministério da Educação e da Cultura da época.
Do noticiário minucioso da solenidade pela mídia, incluindo a
fala do chefe do Estado, contudo, não houve sequer uma simples
alusão a Rui Barbosa, não obstante ser ele a figura central ou,
como diz a Lei acima citada, o escopo, o alvo, a finalidade daquela
comemoração grandiosa e bela. Afinal, ainda que a Lei nº 5.579/70
não considerasse Rui Barbosa uma personalidade exponencial das
letras profanas e científicas, quem hoje teria condições de fundadamente
demonstrar o contrário?
Fundador e por longos anos presidente da Academia Brasileira
de Letras, em sucessão a Machado de Assis, e nela ocupante de
cadeira nº 10, legou-nos a sua longuíssima atividade jurídica,
parlamentar, jornalística e literária uma obra hoje constante
de cento e trinta e sete tomos já editados pela Fundação que tem
seu nome. Do homem de letras, Rui Barbosa deixou o crítico literário
Tristão de Ataíde, em "Contribuição à História do Modernismo",
de 1939, o seguinte depoimento: "Este é o clássico, formidável
de vocabulário e sintaxe, conservador e criador, grandíloquo e
polimorfo".
Foi, pois, com tristeza que tomei conhecimento da festa brasiliense
do Dia da Cultura e da Ciência, promovida pelo presidente da República
a 5 do corrente mês. Não pelas condecorações outorgadas a Gilberto
Gil e outros consagrados intérpretes e compositores de nossa música
- que todos eles bem fizeram por merecê-las. Mas pelo silêncio
compacto e clamoroso com que os promotores da solenidade conseguiram
abafar o nome, tão respeitável para todos nós, de Rui Barbosa
- razão única de ser de tudo quanto ali se fez. Duvido muito que
noutro país democrático e civilizado se cometesse esse mau exemplo
de desrespeito a uma Lei.